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Carta de médicos contra a vacina de Covid-19 inclui nomes sem autorização

A infectologista Rosana Richtmann afirma que, ao receber o documento por WhatsApp, ficou surpresa de ver nomes de colegas próximos assinando o documento. “Achei [...]

Por Silas Vinicius em 29/10/2020 às 08:51:34

A infectologista Rosana Richtmann afirma que, ao receber o documento por WhatsApp, ficou surpresa de ver nomes de colegas próximos assinando o documento.

“Achei estranho, são pessoas que estão no nosso grupo que ajuda o Ministério da Saúde a construir um documento para as próximas decisões sobre a vacina. De repente, me deparei com o meu nome na lista. Foi um susto. Daí a gente vê como é fácil lançar fake news.”

Segundo ela, o que mais a deixou “enojada e triste” foi saber que colegas médicos estão envolvidos na disseminação do documento. “Isso é inadmissível na minha cabeça. É revoltante”, diz. A infectologista estuda a possibilidade de uma denúncia formal ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina).

Para ela, a discussão em torno da obrigatoriedade é totalmente fora de hora e foca uma vacina que ainda não é real. “Temos é que correr com o estudo clínico, fazer uma coisa segura e séria. Não faz sentido esse desgaste agora.”

Kalil concorda. “Não temos uma vacina ainda. Precisamos ver a qualidade da vacina que vai ser colocada para a população. Se forem as melhores vacinas, tem que tomar. Mas vai depender dos resultados. Não faz o menor sentido essa discussão agora.”

Entre os signatários “verdadeiros” estão a médica Nise Yamaguchi, afastada em julho do Hospital Israelita Albert Einstein após comparar o medo do coronavírus com o Holocausto, o pediatra Anthony Wong e o infectologista da Unifesp Paulo Olzon. Todos eles defendem em suas redes sociais o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, uma associação que não tem evidência de eficácia.

Os signatários argumentam que acelerar os testes de eficácia e segurança das vacinas pode ser potencialmente perigoso, falta informação sobre a duração da imunidade e como essas vacinas se comportam nos diferentes grupos e que algumas das vacinas em desenvolvimento usam metodologias inéditas –não existem hoje vacinas aprovadas que usem adenovírus ou RNA para produzir resposta imune.

Outro ponto seria a existência de tratamentos precoces, mais baratos e eficazes na redução da mortalidade e de estudos recentes que apontam para taxa de mortalidade de apenas 0,3%. Muitos desses argumentos não são consenso dentro da comunidade científica.

Para Zanotto, que participou nesta quarta de audiência pública virtual tratando da vacinação e se coloca a favor dos pontos da carta, a iniciativa em si de iniciar um debate no Judiciário e no Legislativo sobre a questão da imunização é louvável, mas a forma como foi feita foi um “tiro no pé”.

Segundo o pesquisador, ele enviou uma lista ao Presidente da República com sugestões de especialistas em vacinas e vírus que pudessem ajudar no debate das vacinas, mas não teve resposta.

Ele diz ter sido procurado depois por médicos que solicitaram informações sobre essa lista e que pediram autorização para enviá-la ao STF. Ele concordou, mas disse que não sabia que estava assinando uma petição junto.

“Eu não concordei em ter meu nome na carta, ninguém me consultou. O que eu fiz foi passar a lista de nomes que recomendo como os maiores especialistas em vacina do país. Meu nome não está nessa lista que eu mesmo indico. Não concordei em assinar petição”, afirma Zanotto.

Segundo ele, a confusão é culpa da psiquiatra do Rio Grande do Sul Akemi Scarlet Shiba, que teria organizado a carta e misturado duas listas: a de signatários com uma lista de amicus curiae (pessoas que podem ser convidadas ao tribunal durante uma ação, sem ser parte da mesma, para oferecer sua visão de especialista no debate).

“Depois que eu entendi quando vieram com essa história de amicus curiae que era para isso que queriam a lista. Mas eu não estava fazendo lista de amicus curiae, estava fazendo uma lista de especialistas em vacina para ser sugerida ao governo brasileiro para auxiliar”, disse Zanotto.

Akemi Shiba afirma que se confundiu ao anexar as duas listas e que todos os médicos que aderiram à petição enviaram nome e número CRM ou, no caso de profissionais de outra área, CPF ou RG. Assim que soube do descontentamento, ela excluiu os nomes. “Foi um mal-entendido e já resolvemos”, disse à reportagem.

Além da autora da carta, os outros apontados por encabeçar a ação são o grupo Movimento Legislação e Vida, cujo coordenador é Hermes Nery, ex-vereador na cidade de São Bento do Sapucaí, os movimentos Docentes Pela Liberdade (PDL) e Médicos Pela Liberdade, e o grupo Dez Mil Médicos pelo Tratamento Precoce, que conta com apoiadores da cloroquina contra a Covid-19.

A reportagem procurou Nery, mas não teve resposta até a publicação deste texto. Também não conseguiu contato com os representantes de Médicos pela Liberdade e Dez Mil Médicos pelo Tratamento Precoce.

Fonte: Banda B

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